Gosto amargo de filtro

Era o último cigarro no trabalho.

Ela estava na rua enchendo os pulmões e aquele céu azul escuro, denso, avisava: chuva.

Fez questão de ir até o último trago.

Queimou até um pouco do filtro.

Não aguentava mais estar ali.

Naquele trabalho que não dizia nada sobre ela.

Passou o cigarro na parede e jogou no lixo.

Subiu.

Pegou sua bolsa, desligou o monitor e saiu correndo.

Sua capacidade de respirar naquele lugar era muito pequena.

Ganhou a rua.

Destravou o guidom, colocou o capacete e ligou o motor.

O amor dela por aquela moto era curioso.

Materialmente ela não valia quase nada.

Mas era a única coisa de que ela realmente dependia e que não lhe cobrava nada.

Era gasolina, faísca e punho.

Só.

Enquanto dirigia sem saber pra onde, o primeiro pingo.

Parar ou não?

Não.

 A chuva apertou e os pingos também.

Os pingos eram maiores e numa quantidade incrível.

Já não era mais água, era agulha.

Naquela hora ela agradecera ao acaso por ter esquecido a blusa.

Na real, sentia-se bem com aquilo.

Algo na essência da dor era o que ela queria.

Acelerava cada vez mais.

Abriu a viseira.

Se deliciou com os pingos no rosto e nos olhos.

Foi a última coisa que viu.

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