Eles chamavam aquilo de sumo.
O resto da cerveja que ficava no fundo da garrafa; quente.
Quando o copo descolou da sua boca, o gosto amargo.
Tristeza, fúria, cigarro, frustração.
Havia na toalha da mesa círculos molhados feitos pelo fundo do copo.
Até ali, ele sabia, as coisas eram ligadas. Tudo fazia sentido.
- Sou o dasmi.
- hã?
Aquele trago que começa a sair da boca e volta com tudo pra dentro.
- dasmi, porra! Midas ao contrário. Sou isso aí. Tudo que eu toco fode.
O amigo coça a barba.
A luz do bar era amarela, em cima da mesa um lustre de sisal.
- como assim?
- nunca quis prisão. Mas sempre fui preso. Queria fazer o que quisesse, até poderia se tivesse grana, mas a grana não te deixa fazer o que quiser. Ou até deixa e eu não sei como.
- arrã.
- deixa eu te contar uma fita. Tava voltando da praia eu e ela. Aquele trânsito. Horas já. Ela dormindo e eu com o estômago embrulhado pelo trabalho no outro dia. Tinha uma fila enorme na minha frente. Aquele monte de pontas de cigarros acesas, as bocas jogando fumaça em mim. De longe eu vi um cara tentando cruzar a pista. Era incrível como as pessoas continuariam paradas, como estavam, mas não deixavam o cara passar. Foram uns cinco minutos assim. Quando chegou minha vez deixei o cara passar.
Agora era a hora de mais um gole, mas não tinha.
- e aí?
- Aí que era volta de feriado. O trânsito ocupava só um sentido, isso que foi foda.
- ah…
- o cara passou por mim, olhou no meu olho e balançou a cabeça, nessa ele esqueceu de olhar o outro sentido. Foi nessa hora o meu toque de dasmi. Vinha uma moto no outro sentido. Não deu tempo nem de frear. Barulho de lenha queimando; o cara no chão. De braços abertos.
