Ele via o outro lado da rua cortado por barras azuis e ainda dois punhos cerrados e dois antibraços.
Seus amigos já tinham ido.
Ele também já teria partido se hoje fosse um dia normal.
Não era.
A escola já estava vazia.
Sobravam ele e o segurança falando ao rádio.
Ele não gostava do segurança.
Ele sempre olhava sua mãe se agachar para pegá-lo.
- Nas raras vezes em que ela o pegava na escola.
Ele amava -
Por cima do ombro ele percebia.
E sempre tinha um sorriso esquisito no rosto.
Parou de fitar o guarda e sentou-se no chão.
Abriu a lancheira, ele sabia, estava vazia.
Mas ele também não estava com fome.
Queria matar o tempo.
Sua medida de tempo era o escurecer.
A noite ainda não tinha chegado.
Mas dia já não parecia.
Foi então que encostou o carro do avô.
Ao lado dele a avó.
Os dois falavam ao telefone.
Não se lembrava do avô na escola.
A avó sim.
Sempre ela.
Ele entrava no carro e ela o bombardeava de perguntas.
Ele gostava.
E só fazia uma: _ e minha mãe?
A avó dizia que estava em casa, esperando.
Naquele dia estava tudo diferente.
O avô desceu do carro, deixou a porta aberta e apoiou os cotovelos no teto.
Continuava ao telefone.
A avó ainda estava sentada no carro, mas com os pés apoiados no chão e com a porta encostada em sua canela.
Parecia estar descansando.
Ele não se mexia.
Depois de mais algum tempo naquela escala própria a avó o pegou.
Percebeu que ela não queria olhá-lo.
Apenas encostou o seu rosto no ombro dela.
Bem devagar o colocou no banco traseiro.
O avô entrou no carro e apoiou a testa no volante enquanto dava a partida.
Já não estava mais com aquele aparelho na orelha.
Saíram sem trocar palavra.
Ele encostou a cabeça no pedaço de vidro que sua altura permitia.
Sentia a vibração e deixava que ela distorcesse sua visão.
Dali pra frente teria de se acostumar com essa distorção.